A ouvidoria deixou de ser um cargo de passagem para se tornar uma área com mercado de trabalho consolidado, exigências técnicas específicas e crescimento real de demanda. Quem atua nessa área lida com regulação, dados, gestão de conflitos e, principalmente, estratégia, e não apenas com o recebimento de reclamações.
Este artigo apresenta um panorama direto sobre o que é a carreira em ouvidoria, em quais setores ela existe, como é a progressão e o que o profissional precisa para se desenvolver.
O que é a carreira em ouvidoria
O profissional de ouvidoria é chamado de Ouvidor ou Analista de Ouvidoria, ele atua como interlocutor entre o cliente ou cidadão e a instituição. Ele recebe manifestações (reclamações, denúncias, sugestões, elogios), analisa, encaminha para as áreas responsáveis e acompanha a resolução dentro de prazos previamente definidos.
Mas o papel vai além do atendimento. Ao registrar e analisar padrões de manifestações, o profissional de ouvidoria gera insumos estratégicos para gestores: identifica falhas em processos, antecipa crises e contribui com a melhoria contínua dos serviços.
Esta função está reconhecida na CBO ( Classificação Brasileira de Ocupações) sob o número 1423-40 e não exige formação acadêmica regulamentada, o que abre a área para profissionais de diferentes graduações.
Onde a ouvidoria é obrigatória por lei
Uma das razões para o crescimento do mercado de trabalho em ouvidoria é a obrigatoriedade legal. Empresas e órgãos de diversos setores são exigidos por seus reguladores a manter estruturas de ouvidoria ativas. Isso cria demanda contínua e relativamente estável de profissionais.
Os principais setores com obrigação regulatória são:
Setor financeiro (BACEN): bancos, corretoras, financeiras, seguradoras e demais instituições supervisionadas pelo Banco Central são obrigadas a manter ouvidoria interna, conforme a Resolução CMN nº 4.860/2020. O profissional nessa área lida com prazos rígidos de resposta, integração com o sistema RDR (Registro de Demandas do Cidadão) e um público com alto nível de exigência.
Saúde suplementar (ANS): as ouvidorias das operadoras de planos de saúde são reguladas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, por meio da Resolução Normativa nº 323, de 03/04/2013. A ouvidoria nesse setor trata de manifestações sensíveis, negativas de cobertura, atrasos em autorizações, falhas em rede credenciada, e exige capacidade de mediação e conhecimento da legislação setorial.
Energia elétrica (ANEEL):distribuidoras e concessionárias do setor elétrico devem manter ouvidorias conforme diretrizes da ANEEL (Resolução Normativa nº 1.000, de 07/12/2021). As demandas mais frequentes envolvem interrupções de serviço, cobranças indevidas e problemas com infraestrutura, contextos que demandam respostas técnicas e prazos controlados.
Setor de Telecomunicações (ANATEL): Prestadoras de serviços de telecomunicações de médio e grande porte são obrigadas a manter canal de ouvidoria com autonomia decisória e operacional, conforme a Resolução ANATEL nº 717/2019. O setor concentra alto volume de manifestações, com foco em qualidade de serviço, cobranças e cancelamentos, o que exige profissionais com capacidade analítica e agilidade no tratamento de demandas.
Seguros privados (SUSEP): Sociedades seguradoras, entidades abertas de previdência complementar e sociedades de capitalização devem estruturar ouvidorias em conformidade com a Resolução SUSEP nº 279/2013. A atuação nesse segmento envolve reclamações sobre apólices, sinistros e resgates, demandas que exigem domínio técnico da legislação securitária e capacidade de mediação com o beneficiário.
Mercado de Valores Mobiliários (CVM): Instituições do mercado de capitais devem manter ouvidoria conforme a Instrução Normativa CVM nº 529/2012. O profissional nessa área lida com manifestações de investidores sobre corretoras, fundos e produtos financeiros, em um ambiente que exige precisão técnica e alinhamento estrito com as normas da Comissão de Valores Mobiliários.
Setor público: órgãos federais, estaduais e municipais mantêm ouvidorias conforme a Lei nº 13.460/2017 (Lei de Proteção e Defesa do Usuário do Serviço Público). A atuação pública tem foco em cidadania, controle social e transparência.
Outros setores: empresas sujeitas à Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013) também mantêm ouvidorias, seja por obrigação, seja por boas práticas de governança.
Como a carreira difere em cada setor
A função-base é a mesma, mas o contexto muda bastante:
| Setor | Regulador | Foco principal | Perfil mais valorizado |
| Financeiro | BACEN | Conformidade, prazo, RDR | Conhecimento regulatório, análise de dados |
| Saúde suplementar | ANS | Mediação, direitos do beneficiário | Empatia, domínio da regulação setorial |
| Energia elétrica | ANEEL | Gestão técnica de ocorrências | Capacidade analítica, visão de processos |
| Telecomunicações | ANATEL | Volume, agilidade, indicadores | Gestão de dados, orientação a resultado |
| Seguros e previdência | SUSEP | Sinistros, apólices, resgates | Domínio da legislação securitária, mediação |
No setor financeiro e de saúde, o profissional tende a ter mais interface com compliance e jurídico. No setor público, a proximidade com políticas públicas e controle social é mais evidente. Em energia e telecom, o volume de manifestações costuma ser alto e a gestão de indicadores é crítica.
Trilha de carreira: do cargo de entrada à liderança
A maioria dos profissionais entra na área como Analista de Ouvidoria Júnior ou Assistente de Ouvidoria, com foco em atendimento, registro e encaminhamento de manifestações.
A progressão típica segue este caminho:
Analista Júnior → Analista Pleno → Analista Sênior: a evolução acontece com o ganho de autonomia na análise de casos complexos, domínio das normas do regulador e capacidade de gerar relatórios com insights estratégicos.
Coordenador / Supervisor de Ouvidoria: gestão da equipe, controle de indicadores (TMA, taxa de resolução, NPS de ouvidoria), interface com outras áreas e com o regulador.
Ouvidor / Gerente de Ouvidoria: posição de liderança com responsabilidade sobre a estrutura completa. Em instituições reguladas, o Ouvidor tem atribuições formais perante o regulador e frequentemente reporta à alta administração.
Diretor de Ouvidoria ou Compliance: em organizações maiores, a ouvidoria pode fazer parte de estruturas mais amplas de compliance ou ESG.
O tempo de progressão depende muito do setor e do tamanho da organização. Em instituições financeiras de médio e grande porte, é comum encontrar planos de carreira estruturados com faixas salariais definidas por nível.
Quanto ganha um profissional de ouvidoria
Com base em dados do Portal Salário (CAGED, atualizado em abril de 2026), o salário médio de um Ouvidor no Brasil é de R$ 4.956,84 mensais.
Considerando os diferentes níveis:
- Analista Júnior: em torno de R$ 2.300 a R$ 3.500
- Analista Pleno: entre R$ 3.500 e R$ 5.000
- Analista Sênior / Coordenador: entre R$ 5.000 e R$ 8.000
- Ouvidor / Gerente: acima de R$ 8.000, podendo ultrapassar R$ 12.000 em grandes instituições financeiras
- Ouvidor / Diretor: acima de R$ 15.000
O setor financeiro tende a oferecer as maiores remunerações, especialmente em bancos e fintechs de médio e grande porte.
Formação e certificações que abrem portas
Não existe graduação específica para atuar em ouvidoria. Na prática, o mercado absorve profissionais formados em Administração, Direito, Ciências Contábeis, Psicologia, Serviço Social e áreas afins.
O que faz diferença real é a especialização técnica:
Instituições reguladas valorizam profissionais com certificações específicas para ouvidores, gestão de manifestações e conformidade regulatória. A OMD oferece cursos de formação para ouvidores voltados para esse perfil, com formação aplicada às exigências dos reguladores do setor privado.
Competências complementares valorizadas:
- Conhecimento das normas regulatórias do setor Análise de dados e geração de relatórios
- Comunicação, mediação e gestão de conflitos
- Ética na atuação da Ouvidoria
- Defesa e proteção dos consumidores e usuários
- Atuação estratégica, com foco na melhoria de processos, produtos e serviços
A capacitação de ouvidores voltada para setores regulados é um diferencial concreto na contratação, especialmente em processos seletivos de bancos, seguradoras e operadoras de saúde, onde o conhecimento regulatório é avaliado já na triagem.
Como entrar na área sem experiência prévia
Quem está começando tem caminhos práticos:
Cargos de entrada: assistente de Ouvidoria, Atendente de SAC (com foco em casos de segundo nível), Analista de Atendimento em áreas de relacionamento com cliente. São postos que desenvolvem as competências básicas da função.
Transição de áreas próximas: profissionais que atuam em SAC, compliance, atendimento ao cliente, jurídico ou qualidade têm facilidade de transição. O conhecimento do cliente ou do negócio já está presente, falta apenas o domínio técnico da ouvidoria.
Formação antes de entrar: fazer um curso de formação para ouvidores antes de concorrer às vagas demonstra comprometimento com a função e compensa a ausência de experiência específica. Em processos seletivos com muitos candidatos, isso é percebido pelos recrutadores.
O papel estratégico da ouvidoria nas organizações
A ouvidoria tem ganhado relevância por motivos que vão além da conformidade regulatória. Organizações que tratam as manifestações como dados estratégicos, e não apenas como obrigação, usam a ouvidoria para:
- Identificar falhas sistêmicas antes que se tornem crises
- Reduzir índices de churn ao resolver problemas na última instância
- Alimentar áreas de produto e operações com feedbacks reais dos clientes
- Compor indicadores de ESG relacionados à transparência e governança
Esse posicionamento eleva o perfil do profissional de ouvidoria, que passa a ter interface direta com diretorias e a participar de decisões estratégicas. É uma mudança de percepção que ainda não chegou em todas as organizações, mas está em curso, e cria oportunidades de carreira mais amplas para quem se posicionar corretamente.
OMD Soluções: formação, sistema e BPO para ouvidorias
A carreira em ouvidoria tem mercado estruturado, obrigatoriedade legal em múltiplos setores e trajetória de crescimento clara. O profissional que combina domínio regulatório, capacidade analítica e visão estratégica tem espaço crescente, especialmente nos setores financeiro, de saúde suplementar e energia.
Nesse cenário, a certificação em ouvidoria deixou de ser um diferencial opcional e passou a ser requisito real em processos seletivos de instituições reguladas. Bancos, operadoras de saúde e distribuidoras de energia buscam profissionais que já chegam com domínio das normas do regulador, e a certificação é a forma mais objetiva de demonstrar isso.
A OMD Soluções atua há mais de 16 anos no desenvolvimento de profissionais e estruturas de ouvidoria no Brasil. Oferece cursos de formação para ouvidores voltados para o setor privado regulado, treinamentos corporativos para equipes, software de gestão de manifestações e serviços de BPO para empresas dos setores financeiro, saúde suplementar e energia.



